acendo o cigarro. 1, 2, 3. trago três vezes. 1, 2, 3.
sua imagem turva na minha mente feito um vulto transcende as nossas memórias obstinadamente. a sua risada ecoa nas paredes dos meus ossos e cada partícula recebe uma pancada suave, porém contínua. você me disse que eu não deveria fumar devido à minha asma severa e eu te prometo que só o faço quando você eclode nas partes mais escuras da minha cabeça doente. você me disse que eu não deveria fumar e eu não o fiz por uma eternidade de tempo, porque você me contou que se preocupava com a minha saúde já tomada. você me segurou naquelas noites e me disse e me disse e me disse para não fumar. foram três vezes que você me disse para não fumar e nenhuma delas eu o fiz. eu te abraçava na varanda do edifício e tudo parecia ficar melhor. o céu mais limpo, os meus pulmões, as tuas palavras, os carros na avenida, nós.
1, 2, 3.
foram três as vezes em que eu fumei quando você me falou sobre ela e, desolado, chorava e tentava me contar da forma mais sutil e menos cruel o quanto gostava de mim, mas amava ela. eu lembro bem que ri de você nessa hora porque invertemos os papéis de forma hilária. você me quebrou enquanto chorava e eu ri porque finalmente as coisas pareciam se encaixar. eu nasci para colidir, para o escárnio e para o jogo que participamos e eu perdi. você, tão ruim quanto a nicotina estagnada nos meus órgãos e nos teus, me mostrou o paraíso e o inferno simultaneamente.
1, 2, 3.
eu nunca te contei, mas eu chorei a noite inteira por três dias depois do nosso adeus. parecia que você se esvaía do meu corpo e eu não podia te permitir ir embora daquela forma tão dolorosa. sei que o fim nos mostrou mais sobre quem somos do que como fomos juntos. apesar de tudo, creio que precisávamos disso. eu precisava disso na minha vida, eu precisava te conhecer para me entender e perceber que mesmo que eu sempre acabe sucumbindo, eu continuo existindo, aqui. assim como você continua rindo e fumando. eu já não fumo, mas a asma continua matando o que restou.
1, 2, 3.
você foi o meu vício e eu, o mártir para o nosso caos.
(via apagou)








